Dr. Jorge Huberman

Como falar sobre política com crianças?

Em ano de eleição, querendo ou não, é quase impossível não ouvir sobre política. No Brasil, o voto é obrigatório para adultos a partir dos 18 anos, e facultativo para adolescentes a partir de 16 anos. Mas isso não impede que as crianças também compartilhem o cotidiano de um país em período eleitoral. Sendo assim, é necessário saber falar sobre política com crianças.

É durante a infância que o seu filho constrói as primeiras concepções sobre o mundo. Nesse processo, os pequenos estão atentos e recebem influência de tudo o que escutam e observam ao seu redor. Isso vale para os mais diversos temas, inclusive os que não são considerados “assunto de criança”.

Participar da vida pública é um direito de todo cidadão, e incluir os filhos nesse processo significa ajudá-los a desenvolver o senso de vida em sociedade e de democracia. Em um país com quase 70 milhões de crianças, pouco mais de 30% da população, falar sobre política desde cedo é preparar futuros cidadãos críticos e aptos a fazerem boas escolhas.

Considerada por muitos como um “tema que não se discute”, a política pode ser, a princípio, complexa para os pequenos. Porém, quando ensinada de forma lúdica e acessível, torna-se mais fácil de ser compreendida. É assim que a criança começa a desenvolver um pensamento crítico, forma opiniões próprias, aprende a ouvir e respeitar outros pontos de vista. Por tudo isso, é muito importantes que os pais aprendam sobre como falar sobre política com as crianças.

Escola, famílias e responsáveis no círculo social das crianças podem ajudar a explicar o assunto. Claro, tudo deve ser feito com muita paciência, sem esconder os fatos e de forma que a criança não se sinta obrigada a aprender sobre.

Quando falar sobre política com crianças?

Os pais não devem impor o diálogo sobre política com as crianças – essa pressão pode desencadear aversão ao assunto. O ideal é esperar, naturalmente, que os questionamentos surjam para começar as explicações e a introdução desse tema.

Em ano eleitoral, é muito comum que as pessoas estejam conversando sobre política a todo o momento e que essas sejam as principais notícias nos jornais. A política está presente nas ideias, atitudes e experiências cotidianas, e não tem como ficar imune a ela – nem as crianças: o seu filho também quer saber o que está acontecendo.

A partir dos cinco anos, as habilidades linguísticas estão mais aprimoradas e as crianças começam a desenvolver a capacidade de compreender conceitos que não podem ser vistos ou tocados. É aí que entra a fase do “Por que?”, em que vários questionamentos começam a surgir.

Os pais, responsáveis e pessoas que convivem com a criança devem estar aptos a responder às perguntas de forma clara, lúdica e de fácil compreensão. Além disso, dar abertura para que os pequenos possam dizer o que pensam é fundamental!

Lembre-se que se optar por não tocar no assunto, de uma forma ou de outra, seu filho receberá influências externas. Ou seja, é melhor tirar as dúvidas e explicar, gradualmente, como o mundo político funciona, do que deixar as crianças expostas a este tema sem nenhuma base anterior.

Fanatismo não!

É claro que as posições políticas da família sempre acabam influenciando as opiniões das crianças, mas isso não significa impor uma forma de pensar aos filhos. Os pais devem deixar claro à criança que ela também poderá ter suas próprias ideias, ainda que pensem diferente das deles.

É mais importante estimular um pensamento que surja da própria criança do que entregar verdades prontas. Ouvir seu filho e validar suas opiniões é uma forma de fazê-lo entender que ele tem direito a pensar e ter as próprias opiniões.

Enquanto houver respeito, a discussão é saudável. Os excessos devem ser evitados, pois não trazem nada de positivo para o aprendizado das crianças. Os pais devem ensinar que não é preciso concordar com a opinião do outro, mas é necessário respeitá-la.

Como falar sobre política com crianças?

O primeiro passo é entender o valor da política para o país e saber que ela sempre estará presente. Não tem como fugir! A melhor opção é conhecer, refletir sobre o assunto e instruir as crianças da forma correta.

Na hora da conversa, evite detalhes ou conceitos muito abstratos e complexos sobre política. Responda o questionamento que foi feito, e caminhe conforme o interesse da criança em saber mais sobre o tema, sem forçar!

Não use muitos adjetivos quando falar sobre ideologias. Apenas explique de forma clara e permita que a criança tire conclusões próprias sobre o assunto, sem subestimar a capacidade de compreensão dela.

Para explicar, use situações próximas à realidade de uma criança. Dentro da escola, seu filho sabe como funciona a relação entre diretores, coordenadores, professores e alunos. Traga esse exemplo para o cenário político para que ela entenda melhor algumas relações, como a dos três Poderes: executivo, legislativo e judiciário.

Para despertar a curiosidade, traga a política para pequenas situações do cotidiano. Para não tornar este um momento cansativo, insira pequenos conceitos e noções políticas em momentos que ele esteja brincando, sempre de forma lúdica.

Dê o exemplo! Evite maldizer a política na presença de crianças. Não é necessário se exaltar quando estiver falando desse assunto com o seu filho. Lembre-se de expor os fatos sempre com paciência e clareza. 

Assim você começa a desmistificar a ideia de que política é algo chato e sujo, quando, na verdade, significa a transformação para tornar o país um lugar melhor. Reconhecer a importância da política é peça-chave para despertar o interesse sobre ela.

É respeitando a opinião do seu filho que ele aprende a respeitar a opinião dos outros também. Em tempos de tanta violência, é fundamental ensinar desde cedo que todos têm direito e liberdade para escolher qual linha política seguir.

Discurso de ódio e notícias falsas

Converse com paciência e de forma lúdica para que a criança entenda sobre política  (Foto: Freepik)

Vivemos em tempos de bombardeios de notícias e, assim como os adultos, as crianças não passam ilesas a eles. Grande parte do tempo conectadas, é difícil ficar por fora de tanta informação, inclusive falsas, as chamadas fake news.

Um método de combater as notícias falsas sobre política, principalmente em ano eleitoral, é ensinar os conceitos básicos sobre o assunto, a fim de criar repertório para que a criança não caia em qualquer conversa.

Principalmente na internet, também é muito comum que discursos de ódio sejam disseminados entre pessoas com opiniões políticas opostas. Caso seu filho apresente falas e comportamentos parecidos, ignorar não é a saída.

A manifestação de um pensamento considerado “antidemocrático” é uma situação que pode ajudar a explicar como funciona a construção e o funcionamento da democracia, e aproveitar para falar sobre períodos como o da ditadura militar, em que a liberdade de pensamento era restrita.

Não ridicularize ou desconsidere nada que o seu filho falar. Ensine-o a dialogar e a defender o seu ponto de vista sem desrespeitar o próximo. Conte com a ajuda de profissionais como psicólogos e pediatras para garantir a melhor forma de falar sobre política com crianças.

“É sempre bom enfatizar que o uso da política, da conversação e da negociação são essenciais para que pendências entre diversos interesses sejam, se não equacionadas, pelo menos equiparadas, tendo como objetivo benefícios comuns e recuos necessários para o entendimento”, afirma o pediatra Jorge Huberman.

O pediatra e neonatalogista, Dr.Jorge Huberman, em seu consultório, no Instituto Saúde Plena fala sobre CID-11
O pediatra e neonatalogista, Dr.Jorge Huberman, em seu consultório, no Instituto Saúde Plena comenta sobre como pais e filhos devem abordar o tema “política” (Foto: Kesher Conteúdo/Divulgação)

Para marcar uma consulta com o pediatra e neonatologista Dr. Jorge Huberman, ligue para (11) 2384-9701

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